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Pirilampo 1

Agenda do imprevisível

Cris Lisboa com a palavra: "No verão de 81 a banda Queen estava na Suíça, gravando faixas para o álbum “Hot Space”. Sem querer, David Bowie agendou horário no mesmo estuídio.  
24 horas e muito vinho depois, eles estavam gravando “Under Pressure”, canção que imediatamente se tornou um clássico do rock. Aqui tu pode ouvir as vozes de Freddie Mercury e Bowie, isoladas dos instrumentos. Por favor, ouça no fone, de olhos fechados. 
Um pirilampo que envio  hoje porque provoca uma vontade doida de começar aquela ideia escondida na gaveta do coração. Sabe qual?" 

Como bateu aqui

Thaiz Sabbagh

As linhas tortas escrevem histórias muito melhores. Escritas nem sempre certeiras,  mas com a autenticidade do inesperado. Ah o que não se espera...Essa cousa que  muitas vezes que se veste na malemolência da trucagem, para promover encontros deliciosos como o de Bowie e Fred. O alinhamento dos planetas é traçado na desorganizada planilha de um estúdio suiço. Eles quem diria?! Os mestres da precisão. Da hora marcada. Deixaram sem aviso prévio, os encontros dos astros. 

Caso do acaso
Bem marcado em cartas de tarot
Meu amor, esse amor
De cartas claras sobre a mesa
É assim
 

No Brasil, a mística dá mais o tom. Tetê solta um agudo e tudo ganha um sentido mágico.  No pressure, whether Under Pressure or at ease. No nosso feijão e o sonho, há todo o vapor soltado em uma  panela de pressão que cozinha encantos e desencantos. Feitiçaria que chega em sussurros. Voa para bem longe para encontrar forças em versos que desafiam: And love dares you to care. Mo amor das primaveras que Lula lá nos disse um dia. 

Aos que estão no palco, não diga apenas que me ama em dias solenes. Me ame com palavras que cuidem do nosso amor na rotina. Cause love's such an old-fashioned word e gosto de bailar à moda antiga, com rosto colado e mãos entrelaçadas no meio da multidão de pesssoas que dançam pela democracia. Me tire para dançar mesmo que essa seja nossa última dança, mas sinto que não vai ser. Para isso luto, para sempre bailar. 

“Provoca uma vontade doida de começar aquela ideia escondida na gaveta do coração”

Cris Lisboa

 Perdi o trem da minha própria história. Pouco sei sobre minhas origens e ancestralidade. O desejo é pegar os trilhos do passado e embarcar em histórias não compartilhadas. 

Thaiz Sabbagh

O silêncio cortado pelo barulho do trem. A ausência sentida por não estar nem lá, nem cá. Da janela do lar irlandês, uma fileira de cabeças vistas quase em um borrão emoldurado por sequências de janelinhas. Lá vão todos!  Um apito e um suspiro. A passagem que estremece não só as paredes da casa, mas também o coração. Uma vontade danada de embarcar de volta. Infelizmente, não seria de trem. Em toda vida, os trilhos sempre estiveram por perto, mas esses não atravessam oceanos. Resta sentar no vagão destinado à saudade. Villa Lobos conduz a jornada com Bachianas Brasileiras nº2. Olhos inundados por poeira e beleza.   

O pensamento corria em trilhos sem destino. Sentia falta até mesmo das memórias esquecidas e não compartilhadas. Essas descarrilhadas em um acidente de percurso qualquer. Aquelas não contadas para matar o tédio de trajetos longos. Viagens das quais fazemos juntos, mas pouco conversamos.   

​Os 12 irmãos do pai já falecido, os quatro ainda vivos. A mãe filha única, a sobrevivente de 15 anos de cuidados da minha avó com Alzheimer. Lembranças não escritas em diários porque a escrita e a leitura eram considerados luxos para os que tinham tempo e dinheiro. Desde pequena, sua ambição era mais do que esse combo. Não sabia nomear, mas queria descobrir.  

Com o não dito e o não escrito, um incômodo ficava do pouco que se foi compartilhado. A  desconfiança da legitimidade dessa memória. O que ela realmente conseguiu guardar?  Estariam essas embebidas por outras tintas, vivências posteriores e gostos adquiridos? Todas essas lembranças pareciam baús de tesouros não encontrados em praias de ilhas desertas.

O quintal do bisavô Otávio Queiroz, o português, avô paterno de sua mãe. A morada a cerca da praia, hoje aterrada. A enseada azul pontilhada de vermelho. As pitangueiras dos quais sua mãe enchia a barra do vestido celeste. Tome modos, menina! 

E como todos um dia já fomos jovens, sem formalidades, o avô Silvio Carlos também! O tuga Otávio, encarregado dos bondes de Vitória, era o passaporte para transitar livremente pela ilha, sem pagar. Ao subir ao bonde, levando a irmã caçula à tiracolo, a querida Tia Nenê, já avisava ao cobrador: "Meu pai é o chefe do bonde!"   

Nem sempre o bonde da história pára. Muitas vezes, segue sem rumo, e não marca horário na agenda dos que ficam para contar o que aconteceu ao longo da jornada. O relógio de pêndulo que ficava na sala da  avó paterna parecia querer contar algo que ficou no tempo

Ponteiros que contavam as horas, os minutos, do vaivém de 12 irmãos que habitavam a casa na beira do cais em Anchieta. O do avô Jorge, o sírio-libanês, que havia chegado a bordo de um navio, com o irmão mais velho. E aqui, mais tarde, havia caído de amores com uma brasileira descendente de portugueses e caboclos. Dizem que sua avó era uma índia catada no laço. 

A verdade é que pouco sei dessas histórias perdidas. Em mim, habita apenas os verões em que ouvia a reza da avó Edília da varanda comprida, do qual me esparramava para brincar sobre  ladrilhos encerados, que reluziam feito rubi nas tardes de sol. O cheiro de maresia que vinha do quintal pairava junto às curiosidades adormecidas. Aquela menina que só queria o veraneio, quer hoje correr todas as estações em busca de histórias nunca contadas à ela. 

Blurred Train Motion
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Relógio de pêndulo da família Sabbagh 

Cris Lisboa nos convidou para:

Brincar de ser quem eu bem me entender

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A proposta da Cris: E o exercício, conversa com o pirilampo. Não literalmente séculos atrás, o ator Ricky Gervais mandou um cartão de aniversário para David Bowie. Dizia assim: agora que tal arranjar um emprego de verdade? Bowie respondeu: Obrigado, já tenho um. Sou um deus do rock. Hahahhahaha Bueno. Cria 26 respostas melhores. Sendo quem tu quiser ser, escriba de mi corazón. Na aula explico porque 26, tá? Por hora, te diverte, lembra que a jornada é “numanice” 

Como bateu aqui:  A brincadeira me fez lembrar também da resposta tardia de Caetano para o jornalista Paulo Francis que havia publicado, em 1983, uma mordaz crônica  intitulada "Caetano, pajé doce e maltrapilho".  Seis anos depois, em 1989, o compositor transformou a sua indignação numa das suas canções mais célebres: "Reconvexo", imortalizada na voz da sua irmã, Maria Bethânia. 

Caetano Veloso, Reconvexo

Meu eu em frases

"Sou aquela que ainda conta estrelas, mas que tem medo de crescer verrugas nas pontas dos dedos por continuar a brincar com essa ambição."

"Sou aquela que teve todos os dentes sisos arrancados e sempre perdeu o juízo."

"Sou uma besta-fera leonina com vaidades, essas inconfessáveis, que assustam quando o desejo transborda. "

 "Sou aquela que, quando criança tomava banho no banheiro de ripas próximo ao galinheiro, mas queria mesmo era a ducha quentinho do santuário do banheiro de visitas. Sou a menina atrevida que gosta de luxar Lux Luxo, mesmo que depois tenha que entregar o corpo relaxado e perfumado ao castigo. " 

"Sou aquela que atravessou o Atlântico para mergulhar  junto a 22 tubarões em um tanque do Aquário de Londres. Aquela que se entrega às esquisitices porque nunca entendeu o utilitarismo de algumas lógicas. "

"Sou aquela menina que carregou baldes de água da biquinha para lavar a louça suja acumulada na pia da cozinha com canos mortos e secos."

"Sou a CEO, a curadora de uma assinatura de luxo com memes de cachorros salsicha. Uma empresa de grande sucesso, do qual há um único assinante: meu marido."

"Eu sou a chuva que lança a areia do Saara
Sobre os automóveis de Roma
Eu sou a sereia que dança, a destemida Iara
Água e folha da Amazônia"

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