Pirilampo 2
A bondade no mundo que queremos

Cris Lisboa com a palavra: “Eu tenho pensado muito ultimamente em como eu consigo ficar calma mesmo quando as coisas ficam dificeis. E acho que isso remonta a algo que aprendi quando criança. Quando era menor, eu e meu pai tínhamos um jogo em que memorizavam os poemas e textos chineses, e os recitavam juntos, tentando terminar as frases um do outro. E tem um poema que eu lembro com muito carinho, que diz: ‘Pessoas ao nascer são boas’, essas seis palavras tinham muito impacto quando eu era criança. O contrário também é verdade, mas eu sempre achei bondade nas pessoas que encontrei, então para qualquer um que tiver fé nisso, se agarre à bondade dentro de si mesmos, não importa quão dificil seja e isso é para vocês, vocês me inspiraram a seguir” disse Chloé Zhao, a segunda mulher na história a ganhar o Oscar de melhor direção, a primeira não-branca. Que recitou um poema pra agradecer, falou de bondade, humanidade e também lembrou toda gente: a palavra muda o (nosso) mundo. Sempre. Ah. É o pirilampo de hoje.
Nota: E o pirilampo traz com ele o exercício : mostra uma cena de bondade que tu tenha presenciado. Coloca textura nas tuas palavras, escriba de mi corazón.
Ednéia

Thaiz Sabbagh
O ar era inundado pelo aroma artificial de morango, de pêssego e de uma raridade disputada: o de algodão doce. Borrachas cheirosas eram o luxo de uma época. A cobiça de pré-adolescentes da sexta série de uma escola pública do interior do Espírito Santo. O cú do Judas. Um lugar então esquecido, onde descendentes de imigrantes italianos e quilombolas tentavam sobreviver à inflação galopante do Governo Sarney.
Nós, um bando de meninos e meninas, com os primeiro odores do sexo e do suvaco cobertos por uma fina camada de pêlos ralos, só sonhávamos com o consumo sem limites das muambas trazidas do Paraguai. Eu, particularmente, inalava as fragrâncias sintéticas do meu material escolar como uma poção mágica para nunca se tornar adulta.
Ednéia, minha colega de carteira, admirava meu pequeno tesouro como seus olhos negros arregalados por encantamento. Em seu aniversário, a presenteei com uma das mais populares borrachas da minha modesta coleção: a da Moranguinho. Nunca a vi usá-la para apagar um rabisco qualquer.
Em uma época em que escolas particulares eram uma realidade distante até para herdeiros de famílias abastadas da região, o filho do dono do supermercado estudava junto à filha da trabalhadora da lavoura de café. Minha colega de carteira tinha como herança material apenas a peneira e o chapéu de palha de sua mãe nesse ofício. E agora, meu presente: um pedaço de látex de cheiro doce, no formato de uma menininha cabeçuda com vestido de fruta vermelha.
Um dia vieram me fofocar: Sua amiga estava estava a beijos tórridos e amassos com um cara no muro atrás da escola. Cuidado com esse tipo de gente! Fiquei envergonhada. Desde que me contaram isso, evitava Ednéia.
No recreio, me refugiava na biblioteca. Ali, estaria segura de toda maldade. Estaria coberta pelo manto de Cecília Meireles, com a capa dura das aquarelas de Ou Isto Ou Aquilo, meu escudo mágico. As armas de Cecília eram poderosas, mas nem sempre me protegiam de todos os males.
Ao voltar para sala vi o meu tesouro picotado, pedacinhos perfumados, simulacros frutas e doces em migalhas. Culparam Ednéia. Meus olhos faíscavam de raiva. Ela olhou para baixo, sem se defender.
Outro dia ao voltar do recreio. Encontrei a Moranguinho com um bilhete numa folha de pauta amarelada e rasgada: "Não precisa creditá ni mim. Não fui eu. É triste ver você triste. Devolvendo sua Moranguinho pra você começar sua coleção de novo."
Poucos dias depois, o estilete estripador de borrachas cheirosas havia voltado a atacar. A coleção de Elisângela, a menina mais loira e linda da sala, havia sido estraçalhada.Todos sabiam que o autor do estrago era Serginho. Ele estava com ciúmes. Patrick, o filho do dono da padaria, lanchava ao lado dela na hora do recreio.
E por que as minhas borrachas? Eu era muito esquisita para Serginho. Ele sempre estava a caçoar de mim por minhas alegorias e imaginação. "Ah pára, esquisita! Ninguém está interessado em suas histórias bobas!"
Ednéia já não estava mais lá. Havia saído da escola para receber a herança de sua mãe. O tempo me fez apagar essa memória com borrachas nem sempre perfumadas. Hoje, escrevo essa história e acrescento: Desculpa, Ednéia. Queria lhe dar um abraço.
Os Pescadores e suas filhas

Os pescadores dormiam
cansados, ao sol, nos barcos.
As filhinhas dos pescadores
brincavam na praça, de mãos dadas.
As filhinhas dos pescadores
cantavam cantigas de sol e de água.
Os pescadores sonhavam
com seus barcos carregados.
Os pescadores dormiam
cansados de seu trabalho.
As filhinhas dos pescadores
falavam de beijos e abraços.
Em sonho, os pescadores sorriam.
As meninas cantavam tão alto, que até no sonho dos pescadores boiavam as suas palavras
Cecília Meireles